Não tenho estômago pra isso.

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Antes de mais nada, deixa eu contar como eu consegui meu emprego de helper. Foi na cagada, pura sorte mesmo. É incrível como eu tenho pé frio pras coisas que eu mais quero que dê certo e, uma sorte danada pras coisas que eu nem faço muita questão. Tô até pensando em adotar um novo lema pra minha vida : "Viver sem querer nada". Quem sabe assim eu não consigo tudo?
Enfim, eu nem estava sabendo que o hospital em que eu trabalho estava abrindo vagas para estrangeiros. Fiquei sabendo por uma amiga só que quando ela me disse, mesmo que eu quisesse tentar uma vaga, já não dava mais tempo pois todas as vagas pro teste já estavam preenchidas. Eu nem me abalei com isso, até então nunca tinha pensado em trabalhar como helper e quando minha amiga me perguntou por que eu não tentava trabalhar com isso caso houvesse outra chamada, a única coisa que eu disse foi: "-Não tenho estômago pra isso". E eu estava sendo sincera. Pra quem não me conhece, pense em uma pessoa fresca, mas bem fresca mesmo, nojenta pra caramba, daquelas que não bebe no mesmo copo ou mesma garrafa nem do namorado, daquelas que quando dá uma mordida de um bolo ou qualquer outra coisa pra alguém fica com nojo de comer o resto, daquelas que quando vai fazer faxina e limpar o chão prefere jogar fora o pano do que ter que lavar pra usar de novo ainda mais se a faxina for no banheiro, daquelas que morre de nojo de pano úmido e por aí vai. Consegue pensar em alguém assim? Não? Nem eu... Mas eu sou assim. Então imagina eu trabalhando como helper, ter que trocar a fralda, dar banho, limpar vômito... vômito... taí outra coisa que eu não suporto. Eu não posso nem ver, nem escutar e nem imaginar alguèm vomitando que eu já passo mal também, eu tenho pavor de gente passando mal, fobia mesmo. Antigamente eu não gostava nem de ler a palavra vômito ou qualquer outro sinônimo, quando eu via que alguma coisa do gênero ia aparecer em alguma leitura eu já pulava pro outro parágrafo e cobria o de cima com a mão pra não correr o risco dos meus olhos esbarrarem nele e ler a maldita palavra, e se por acaso eu lesse sem querer eu tinha todo um ritual pra me livrar da "praga", sim porque se eu lesse, ou lembrasse, ou imaginasse ou visse alguém passando mal eu também ia passar mal, mas isso só na minha cabeça. E se fosse só com vômito tava bom, mas com diarréia também, quando eu ficava com diarréia na hora de dar descarga eu nem olhava pra privada muito menos pro que tinha dentro dela, pra mim diarréia era a mesma coisa que o vômito a única diferença é que saía por baixo. Muitas vezes eu dizia pra mim mesma "Diarréia é o vômito que sai por baixo" Doida? Imagiiiina.... Bom, levando em consideração tudo isso, nem a pau que eu ia tentar ser helper. Mas eis que a minha "sorte" começa a soprar a meu favor e duas pessoas da lista que iam fazer o teste no hospital desistem antes mesmo de começar. Então minha amiga me liga correndo e pergunta se eu não quero tentar e que ela iria passar meus dados pro responsável pela lista. Eu disse que sim muito a contra gosto, mais porque como estava desempregada e achar emprego na época era a mesma coisa que achar uma agulha num palheiro, acertar na mega-sena etc etc e se eu negasse uma chance de emprego que praticamente caiu no meu colo sem nenhum esforço meu todo mundo ia cair em cima de mim e depois eu ia ter que ouvir um monte, eu decidi tentar. E não é que eu consegui? Eu nem acreditei, e nem acredito como eu mudei. Hoje me vejo trocando fralda logo depois que eu almoço e não passo mal nem um pouco (e eu como bem pra caramba no almoço), limpando o chão depois que alguém passa mal, mandando a pessoa por pra fora a comida na minha mão quando ela se engasga. Eu nunca pensei, nunca mesmo, que eu um dia faria tudo isso com a maior naturalidade e sem passar mal. Acho que eu posso dizer que eu tenho estômago sim, e de avestruz ;)

Otetsudai shimashouka?

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"Otetsudai Shimashouka?" A tradução pra essa frase é mais ou menos "Que tal uma ajuda?". Pois bem, decidi criar esse blog para dividir minhas experiências como helper. Pra quem não sabe, helper é uma pessoa especializada na assistência e cuidado de idosos, é um trabalho árduo porém recompensador. Esse trabalho está em "alta" aqui no Japão entre os estrangeiros afetados pela crise, e como eu tenho pé de morto, frio pra caramba, não escapei da crise e fui demitida da fábrica em que trabalhava. Como já disse antes, quero dividir as experiências, impressões, dificuldades, "desastres" e é claro os vários bons momentos que tenho tido desde que comecei nesse trabalho. Está, com certeza, sendo uma experiência única, enriquecedora e "hematomizante" (essa palavra existe? e sim, eu apanho dos velhos /o\). Mas, tirando o que não presta o resto é festa né. Bom, vou ficando por aqui, tem muita coisa a ser dita portanto vou escrevendo aos poucos, afinal ninguém merece um livro como post ;)